O mundo encantado de JC

Rogério Santos - parte 2

Julho 29, 2008 · 11 Comentários

Perdido entre os meus posts antigos estava lá uma homenagem a Rogério Santos, em Abril de 2006. E as coisas que disse lá sobre ele continuam valendo, mas em se trantando de Rogério, em 2 anos tanta coisa acontece que achei uma boa idéia “atualizar” a homenagem.

Denise Neves)

Rogério Santos discursando na sala do Paraíso (Foto: Denise Neves)

Nos últimos 2 anos o Rogério se transformou de bancário em filósofo. Trocou de emprego, entrou na faculdade de filosofia, virou um dos melhores alunos da classe, tem andado com todos aqueles loucos, destrinchando textos complexos dos maiores pensadores da humanidade. E começou a escrever um fotolog pra lá de interessante, onde fala de servidão voluntária, dilemas morais de Nietzsche, letras do Cazuza, religião, a resposta de Kant a Hume sobre a relação de causalidade, filmes europeus, o fim da filosofia, essas coisas. Confesso que muitas vezes não entendo direito o que ele quer dizer com seus textos filosóficos, mas a sensação de estar em contato com os pensamentos que trafegam por essa mente iluminada traz um conforto muito grande.

O Rogério veio me visitar aqui em 2006 mas não em 2007 – preferiu ir ao Nepal para chegar mais perto de sabe lá que respostas esteja procurando para sabe lá que perguntas. Mas tudo bem. Sempre que tenho a chance de ir ao Brasil ele é uma das primeiras e uma das últimas pessoas que vejo. E, daqui da Bretanha, mantemos um contato quase que diário por e-mail, pelo telefoninho VoIP ou pelas partidas de xadrez.

Rogério e JC

Rogério e JC

Escrevendo isso percebo que minha amizade com o Rogério está para fazer 9 anos. Mas já o conheço há uns vinte – ele era cloega de classe da minha irmã em 1987 e dançou a valsa na festa de 15 anos dela. Se soubesse que iríamos ficar tão próximos teria conversado mais com ele naquele dia – mas ele não iria me dar bola mesmo, já que eu era nada mais que um “pirralho” da 7a serie para ele naqueles tempos.

Antes de fechar, quero agradecer ao Rogério pela ajuda fundamental que ele está me dando nesse período difícil e decisivo pelo qual estou terminando de passar.

Abraços para você! Parabens pela sua conquista! E mostra pra eles!

AAhhhh – só um PS aqui. Na homenagem inicial conto a história do aniversário da namorada do Michael em Buenos Aires, em que eu chamei erroneamente a menina de Cecília graças a uma dica maliciosa do Rogério. Pois veja você: em Dubai, o nosso anfitrião André é colega de infância do Michael, e me perguntou “Você tem falado com ele? Sabe se ele já se casou com a Ciça?”. E eu penso: “Ciça? Cecília? Será que eu estava certo naquela ocasião? Ou sera que o Rogério ali, em Buenos Aires no ano 2000, já estava usando seus dotes mediúnicos para antecipar o nome da futura cara-metade do Michael?”

→ 11 ComentáriosCategorias: Amigos · Argentina · Brasil · Familia · Filosofia · Historias · Londres · Uncategorized
Tagged:

Chega de saudade

Julho 28, 2008 · 5 Comentários

Em 2008 o Brasil comemora os 50 anos da Bossa Nova.

Cifratanga)

Joao Gilberto e Tom Jobim fazendo historia na praia (Fronte: Cifratanga)

E com razão: a Bossa Nova foi o mais importante movimento cultural do Brasil, projetando os nomes de Tom Jobim e João Gilberto para o primeiro time do jazz internacional, e despertando a curiosidade dos gringos para o que acontecia no Brasil. Musicalmente, a Bossa Nova abriu as portas do mundo para os brasileiros que viriam depois, como o Milton Nascimento, o Ivan Lins e o Jorge Benjor, que já chegaram a ser mais famosos no exterior do que no Brasil. Mas o significado da Bossa Nova na história do Brasil vai além da música: 1) ela reflete o estado de espírito de um país que passava por uma fase áurea; 2) talvez até por isso mesmo, ela poderia ter sido um sinal de alerta para o que estava por vir.

Explico.

1) Sobre a fase áurea: o final dos anos 50 foram o melhor momento vivido pelo povo Brasileiro (os primeiros anos de Plano Real rivalizam, mas acho que não chegam lá). O Presidente Juscelino passeava de fusca conversível festejando a chegada da indústria ao Brasil, e construía uma cidade futurista no meio do cerrado para ser a nova capital (alguma semelhança com Dubai?). Tudo o que era Brasileiro encantava o mundo – da Bossa Nova, que cativou Frank Sinatra e Stan Getz, ao futebol de Pelé, aquele menino de 17 anos que brilhou na Suécia e conquistou a primeira Copa do Mundo para o Brasil.

Patetada)

Rei Pelé comemorando a Copa de 58 (fonte: Patetada)

Imagine você sendo um brasileiro nesses tempos, acostumado a viver num país atrasado e isolado, e vendo esse mesmo país se lançar ao mundo e ao futuro com uma ousadia – e um sucesso – inéditos. Não tem como não expodir de orgulho e felicidade, e cantar as coisas boas da vida. Chega de saudade! O negócio é festejar o presente e esperar o bom futuro que se desenha. A Bossa Nova era uma música leve, alegre, suave, de bem com a vida. Era a expressão da felicidade e da esperança do Brasileiro do fim dos anos 50. Junto com a Bossa Nova devem ter surgido as expressões “Deus é Brasileiro” e “O Brasil é o país do futuro”.

Forum Outer Space)

Construção de Brasília (fonte: Forum Outer Space)

2) Sobre o sinal de alerta: Talvez a Bossa Nova pudesse ter avisado o Brasileiro que nada é tão simples assim, e que depois de uma fase tão boa SEMPRE vem uma fase ruim. Quem acreditou no amor, no sorriso e na flor sonhou, sonhou. O final dos anos 50 foi não mais que um “surto” de otimismo, liberdade e modernidade no Brasil, e passou logo depois. Os projetos megalomaníacos de JK custaram ao Brasil a estabilidade econômica e política, entregando o país à ditadura e à inflação das quais levamos, respectivamente, 21 e 35 anos para nos recuperar*, tendo a desigualdade social e a violência como sequelas que perduram até hoje. O Brasil voltou a se fechar ao mundo, a indústria nacional parou no tempo, e até a nossa seleção parou de ganhar as copas.

Falando em frases de efeito, uma que deveria ter surgido durante a Bossa Nova é “Está tudo tão bem que se melhorar estraga”. Porque é verdade. O momento em que mais temos que nos preocupar com o futuro é exatamente aquele em que as coisas parecem estar bem demais.

A boa notícia é que a Bossa Nova ficou. E também a nossa música se consolidou como uma das melhores e mais respeitadas do mundo. Nosso futebol também: não ganhamos todas mas somos sempre favoritos, e ainda produzimos os melhores jogadores do mundo.

A outra boa notícia é que, passada a má fase, o Brasil está indo bem hoje, graças à ação razoavelmente responsável de governos seguidos. Claro que temos um longo trajeto ainda a percorrer, mas o Brasil parece caminhar rumo ao futuro devagar e sempre, de um modo mais sustentável. Somos junto com a China, Índia e Rússia a grande aposta do mundo para o futuro. Até já viramos Investment Grade! Isso avisa ao Brasileiro que nada é tão impossível assim, e que depois de uma fase ruim SEMPRE vem uma fase boa. E chega de saudade.

Skyscraper City)

O Brasil é Investment Grade... (fonte: Skyscraper City)

... e o Rio de Janeiro continua lindo!

... e o Rio de Janeiro continua lindo!

* Claro que houveram outros motivos para a inflação e a ditadura, mas isso fica para outra discussão.

→ 5 ComentáriosCategorias: Brasil · Brasilia · Futebol · Futuro · Historias · Musica
Tagged: , , , , , , , , ,

Cidade X Cidade: Dubai e o Cairo (as nuances do mundo árabe)

Julho 27, 2008 · 6 Comentários

A Barbrinha é nossa nova amiga virtual. Está morando e descobrindo o Egito, e contando suas aventuras (algumas delas engraçadíssimas) no seu blog. A Denise a conheceu através do blog e eu entrei de carona. Depois descobrimos que ela conhece a Ju Picanha e o Neto, que tabalharam com o marido dela. Mundo pequeno.

Enfim. A Bárbara, em sua busca por desvendar os mistérios dessa cultura árabe na qual se inseriu, viu o meu post sobre Dubai e me pediu para fazer uma comparação entre Dubai e o Egito. Vamos a ela.

Burj-al-arab, 5 anos de idade

Dubai: Burj-al-arab, 5 anos de idade

Pirâmides de Gizé, 5.000 anos

Cairo: Pirâmides, 5.000 anos

Semelhanças. Dubai e o Cairo são cidades-chave no que se entende por “mundo árabe”. As duas cidades ficam no Oriente Médio, têm o árabe como língua oficial, tem o clima quente do deserto e a cultura definida pelos hábitos islâmicos. E pára por aí.

De resto, Dubai e o Cairo não poderiam ser mais diferentes, e pudera. O Egito tem 6 mil anos de história para contar. Dubai tem uns 20 e olhe lá. O Egito foi o berço da civilização humana, deu ao mundo a escrita, a primeira religião organizada, a primeira sociedade com castas, e a primeira maravilha do mundo. As pirâmides de Gizé, que até 1889 ainda eram a maior estrutura já erguida pelo homem, podem ser vistas da lua e ninguém sabe ao certo como foram construídas. Depois disso, o Egito entrou em declínio e viveu sob o domínio dos Persas, Romanos, Bizantinos, Árabes, Turcos Otomanos, Franceses, Britânicos, recuperando sua independência apenas depois da II Guerra Mundial.

O Cairo, visto do 16o andar

O Cairo, visto do 16o andar

Dubai não tem nada dessa riqueza histórica. Os Emirados Árabes de hoje eram um protetorado britânico esquecido até os anos 70, e ganharam a independência quando o petróleo começou a ter um papel mais relevante no comércio internacional. Era um deserto, e só. Os petrodólares que entraram na região nos últimos 35 anos é que estão levantando este país de fantasia e megalomania e atraindo gente de todas as culturas e classes sociais. Os Emirados Árabes e a China de hoje são provavelmente as maiores metamorfoses geopolíticas vistas na história. Nunca um país tinha conseguido se alçar do nada à condição de potência tão rapidamente. A estrutura mais alta feita pelo homem não fica mais no Egito – fica nos Emirados Árabes.

Dubai Marina

Dubai Marina

A enorme diferença entre as histórias dos dois lugares ajuda o visitante a entender as diferenças quando os visita. O Cairo, maior cidade do Oriente Médio, deve ser a menos árabe das cidades do “mundo árabe”. Sem dúvida a cultura árabe é a mais forte que existe por lá, mas o Egito não pode negar as heranças culturais recebidas de todos os seus dominadores. É talvez o único país onde o Islã convive com outras religiões – 15% da população é cristã ortodoxa grega. Os preceitos muçulmanos são respeitados, mas por força dos costumes e não por força de lei, como nos países vizinhos. A diversidade cultural do Cairo forçou a convivência de pessoas de culturas diversas durante milênios, e produziu um clima de tolerância não vista em outras sociedades árabes.

Em Dubai existe diversidade cultural e religiosa também, mas por outros motivos. Ao contrário do Cairo, em Dubai quase todo mundo é estrangeiro. As diferentes culturas que se vê lá são aquelas trazidas pelos imigrantes (os europeus da classe média e os indianos da classe baixa), mas não há troca. Os diferentes grupos sociais são isolados entre si e se ignoram solenemente em Dubai.

Olha os caras de turbante a direita da Denise

Dubai: Olha os caras de turbante a direita da Denise!

Olha a moça "assanhadinha" na garupa da vespa!

Cairo: Olha a moça "assanhadinha" na garupa da vespa!

Em suma: o Cairo é uma cidade de verdade, pois está lá a milhares de anos sofrendo a ação dos movimentos da história, com seus habitantes interagindo entre si para criar uma identidade cultural única e peculiar. Dubai é (ainda) um projeto de cidade, sem identidade cultural definida. É claro que com o tempo os grupos de pessoas que vivem em Dubai vão naturalmente se integrar e se misturar criando enfim uma sociedade “típica” emirate. Mas isso ainda vai levar uns bons 50 anos para acontecer.

Conhecer Dubai e o Cairo é ótimo para o turista ocidental que imagina que a palavra “árabe” tem um significado só. Achar que o egípcio é igual ao saudita, o iraniano, o libanês ou o emirate seria o mesmo que imaginar que os ingleses são iguais aos alemães e aos italianos, ou achar que os paulistas são como os baianos e os gaúchos. Vistos de longe, só se enxerga as semelhanças entre esses grupos, mas quando se aproxima as diferenças vão aparecendo.

Pra finalizar: mulher de burca, tem bastante. Nos dois lugares. Mas não são todas. Nos dois lugares. E o importante mesmo é que, ao longo da visita, aprendemos uns com os outros e selamos a paz que deveria permear as relações entre os povos. “Allah” é apenas a tradução árabe da palavra “Deus”, assim como “shokran” significa “obrigado”. E assim a vida vai seguindo.

 Confraternização cultural

Confraternização cultural

Barbrinha querida, espero que isso ajude um pouco na sua descoberta. Beijos!

→ 6 ComentáriosCategorias: Egito · Filosofia · Turismo
Tagged: , , , ,

Londres

Julho 24, 2008 · 9 Comentários

Salto em Picadilly Circus

Salto em Picadilly Circus

Uma pessoa se define por algumas decisões chave que tomou na vida. Uma profissão, um casamento, uma mudança para outra cidade, uma promoção no trabalho. Em cada uma delas vamos desviando nossa vida para aquilo que desejamos que ela seja - ou o que a realidade nos impõe - e passamos a ser as pessoas que somos hoje. Até que mudemos de rota de novo com outra decisão.

No meu caso, quiseram os caminhos da vida que eu viesse passar um tempo aqui em Londres. E lá se foram mais de 3 anos. Quando se tem que tomar uma nova decisão que pode mudar tudo, escrever ajuda a enxergar tudo aquilo que temos e podemos deixar para trás em nome de outra vida que podemos viver no futuro.

Pois então vem aqui um tributo à nossa vidinha em Londres.

Arrumando o apezinho

Arrumando o apezinho

Tem o apartamentinho na Floresta de São João, pequenino mas adorável. Fica pertinho do centro, a uma quadra dos estúdios de Abbey Road onde músicos que mudaram o mundo gravavam suas genialidades.

Dentro do ap tem o sofá, cuja capa nós trocamos na Ikea. Tem a geladeirinha de Stellas, que realiza o sonho de tomar cervejas sempre geladas sem levantar do sofá. Tem a TV onde assistimos a alta qualidade das produções britânicas, e aprendemos a adorar os programas de imóveis, culinária, e reality shows que o pessoal daqui também adora. Tem o XBox, com o Rainbow Six Vegas, o GTA 4, o Fifa, o Halo, para desestressar.

Minha geladeirinha querida

Minha geladeirinha querida

Daí, no final de semana, saímos eu e Denise para uma gostosa caminhada de 1.5km até o Sainsbury’s. Fazer supermercado é um prazer, escolhemos as coisas que gostamos, comparamos preços, experimentamos coisas novas, e damos risadas. Cada compra nos dá pontos no programa de fidelidade do Sainsbury’s. Colocamos tudo no “carrinho da vovó” e na sacolona da Ikea para não usar as sacolas plásticas que agridem o planeta. Pegamos o 187 de volta para casa e guardamos as compras.

Aprendemos a cozinhar, e nos divertimos fazendo almoços e jantares diferentes. Tem o “bacon & egg” da Denise, tem o meu risoto de frutos do mar, teve a moqueca que fizemos para o Eric Feddal (o gaulês), tem os omeletes, tem o Sunday roast. Plantamos manjericão e coentro em casa. Compramos apetrechos novos para a cozinha.

Hamburgão com guaraná

Hamburgão com guaraná

Sunday Roast em casa

Sunday Roast em casa

Tem a nossa pequena DVDteca que aumenta quase a cada semana. A Denise volta do trabalho e compra uns DVDzinhos novos para a gente assistir. Séries de TV americanas e britânicas, filmes daqui, filmes de outros lugares. Devoramos tudo no nosso sofazinho, saboreando nossos quitutes e tomando as cervejinhas da geladeirinha de Stellas.

Tem a nossa turminha, a Débora, o Fabian, a Juliana, o Stuart, o Mark Stanko, o Mark Huckstep, o Roger e a Cláudia lá em Yorkshire. Tem o pessoal que vem visitar – neste ano vieram Xaxá, Fatinha e Felipão, veio o Thiago Reimão, veio o Victor Adura e o Luigi, a Marise e o Gustavo, o George, A Julinha e a Renata, o Felipe Aquilino, o Pinhal, a Maria Helena. Temos o maior prazer em receber – a casa é pequena mas o coração é grande.

JC+D com Mark e Lisa Huckstep

Com Mark e Lisa Huckstep

De, JC, Juliana, Debora, Claudia, Roger

Com Juliana, Debora, Claudia, Roger

Baker Street Station

Baker Street Station

Tem o metrô de Londres, que a gente adora criticar mas que leva a gente pra todos os cantos. Tem o 139, que a gente pega aqui na esquina e passa em quase todos os lugares turísticos. Tem a bicicletinha que a Denise acabou de comprar, e que nós montamos sozinhos aqui em casa. Tem os vôos baratos para tudo quanto é canto da Europa. E bendito seja o Heathrow Express, que leva ao aeroporto em 15 minutos.

Tem a caminhada do Southbank, de Waterloo até a Tower Bridge, com o Founder’s Arms e o Honiman at Hay’s para paradas merecidas no caminho. Tem Covent Garden (Covent Góóden para os locais), com os artistas de rua, os Scottish Pasties e os pubzinhos onde eu me encontro com a turma da Denise depois do trabalho. Tem a Edgware Road, onde vamos comer um kebab sempre que dá vontade. Tem a Finchley Road e a Tottenham Court Road, onde compramos tudo o que precisamos (o que não vende nessas ruas não existe). Tem também o Guanabara, para a gente matar as saudades da terrinha, com música brasileira ao vivo e Brahmas no balcão.

Edgware Road

Edgware Road

Thames South Bank

Thames South Bank

Londres tem brasileiros de todas as origens. Tem indianos, japoneses, chineses, árabes, judeus, franceses, mexicanos, escandinavos, moçambicanos, australianos, italianos, russos, malaios, poloneses, Trinidad&Tobaguenses. Ah, de vez em quando tem uns ingleses também.

Em Londres as pessoas se preocupam com o meio ambiente (como se as atitudes de algumas pessaos nessa ilhazinha fossem salvar o planeta), com a saúde, com a justiça. Em Londres as regras são claras e quase todo mundo as respeita. Em Londres você não precisa reconhecer firma em cartório, e compra a passagem do trem mesmo quando ninguém vai checar.

London Eye + Big Ben

London Eye + Big Ben

E assim é a nossa vidinha. Eu encontro a Denise em qualquer ponto da cidade, e caminhamos durante horas. No caminho paramos para tirar fotos e comprar uma cerveja nas lojinhas de indiano. Chegamos em casa cansados de andar, botamos um camembert para assar e colocamos um DVD novo que compramos, para assistir e dormir, sem antes um de nós dois dizer:

“É boa a nossa vidinha aqui em Londres”.

Foi mal. Ficou meio longo o post. Mas eu queria deixar o registro.

→ 9 ComentáriosCategorias: Amigos · Cerveja · Comida · Denise Neves · Familia · Filosofia · Fotografia · Historias · Londres
Tagged: , , ,

Dubai

Julho 21, 2008 · 12 Comentários

Salto nas areias do Golfo Persico, Burj Al-Arab ao fundo

Salto nas areias do Golfo Persico, Burj Al-Arab ao fundo

Da janela do apartmento dos nossos amigos no andar 52 da Millenium Tower, onde nos hospedamos, avistávamos o esplendor futurista da Sheikh Zayed Road cortando Dubai de Leste a Oeste a 1km da praia. O prédio, um dos 10 maiores edifícios residenciais do planeta, tem janelas que não abrem para otimizar o funcionamento do ar condicionado.

Millenium Tower @ Sheikh Zayed Road, Dubai

Millenium Tower @ Sheikh Zayed Road, Dubai

Dubai é uma loucura. Um sonho megalomaníaco que desafia a imaginação de alguém nascido ainda no terceiro quarto do século XX. A metrópole, que nada mais era que um vilarejo com um punhado de beduínos mercadores 15 anos atrás, e que a passo de bala se consolida como a capital do Oriente Médio, se constrói diante dos nossos olhos.

Torres gigantescas - com apartamentos, escritórios, hotéis e shopping centers - pipocam aqui e acolá num piscar de olhos. Ilhas artificiais se erguem do chão oferecendo priais particulares para os mais abastados. Idéias malucas, como o hotel debaixo d’água, o prédio de 170 andares, a torre cujos andares giram independentes, a pista de esqui na neve de verdade no meio do deserto mais quente do mundo, se tornam realidade e viram coisa corriqueira no dia-a-dia do cidadão. Nada parece impossível a este lugar, graças a um objetivo claro, à tolerância religiosa, à tecnologia de ponta, à mão-de-obra barata e aos infinitos dólares do petróleo.

Burj Dubai e seus 160+ andares

Burj Dubai e seus 160+ andares

Cidade em construção

Cidade em construção

Neve no deserto

Neve no deserto

As obras seguem, as gruas se amontoam, mas a locomoção ainda é difícil. As avenidas se alargaram, mas as alças de acesso que as farão se conectar ainda não ficaram prontas. O metrô, de superfície, se levanta ao lado da Sheikh Zayed e já no final desse ano vai levar passageiros de um extremo a outro da cidade em trens sem maquinista, com vagões exclusivos para as mulheres e (outros) para os obreiros indianos. Até lá, o carro é indispensável mesmo para se atravessar a rua.

Além da falta de transporte público, o calor úmido de 45 graus é o outro fator que proíbe as pessoas de ganhar as ruas. Em Dubai você sente uns 10 choques térmicos por dia, cada vez que abre a porta do carro ou de um prédio para o ar escaldante e pegajoso da rua. TODOS os dias faz sol, e imagino que quem nunca saiu daqui poucas vezes tenha visto uma nuvem.

Trecho da orla, sol todo dia

Trecho da orla, sol todo dia

Dubai é exatamente o avesso de Londres. Todos os aspectos da vida aqui são o contrário daqueles na capital da velha bretanha. Garoa intermitente x calor infernal. Longas caminhadas x dependência de carro. Tradição x modernindade audaciosa. Flats apertados x casarões vastos. Regras claras x “o céu é o limite”. Glórias passadas x promessas futuras. Realidade x fantasia.

Dubai tem uma sociedade com castas bem definidas. No topo, os “emiratis”, os habitantes locais donos da riqueza que está tornando realidade esse devaneio fantástico. É fácil indentificá-los pelo orgulho com que desfilam eu seus aventais brancos e turbantes amarrados à cabeça por um anel preto. Na base, hordas de indianos, paquistaneses e filipinos que, fugindo da miséria em seus países de origem, vireram carregar os tijolos e dirigir os táxis para levantar a cidade. Espremidos no meio, os expatriados europeus que entregam sua inteligência aos sheikhs para fazer crescer os prédios e diversificar os negócios, em troca da vida confortável num país sem impostos.

"Emirati" comprando no McDonald's

"Emirati" no McDonald's

Operarios na hora do recreio

Operarios na hora do recreio

Dubai é hoje o que foi Nova Iorque no início do século passado. Um lugar cuja ousadia e riqueza futilizam os superlativos e mostram a tendência para as grandes metrópoles do futuro. Para quem, como eu, vem de outro sonho feliz de cidade, fica a sensação de se estar num parque temático para adultos ricos. Mas talvez eu fosse achar a mesma coisa se tivesse assistido a construção do Empire State Building a 80 anos atrás.

Será que vale a comparação? O futuro dirá? Ou será Dubai já o futuro gritando para nós até que aprendamos a ouvir? Que aceitemos a nova ordem das coisas? Que percebamos que a tal “era da informação” pode já ter passado ou que talvez nem tenha ocorrido? A pujança dessa capital inventada pode ser talvez a grande negação do valor estratégico da “informação”, dada a sua rápida banalização. As economias que capitnearam a tecnologia digital estão em crise, vendo toda a sua riqueza se escorrer pelos dedos para parar nos bolsos dos mesmos sheikhs de sempre, para a construção de seus delírios de concreto. Dubai nos ensina que, novamente, quem está no topo da pirâmide é quem controla os recursos naturais.

→ 12 ComentáriosCategorias: Fotografia · Turismo
Tagged: , , , , , , , , ,