O mundo encantado de JC

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Chega de saudade

Julho 28, 2008 · 5 Comentários

Em 2008 o Brasil comemora os 50 anos da Bossa Nova.

Cifratanga)

Joao Gilberto e Tom Jobim fazendo historia na praia (Fronte: Cifratanga)

E com razão: a Bossa Nova foi o mais importante movimento cultural do Brasil, projetando os nomes de Tom Jobim e João Gilberto para o primeiro time do jazz internacional, e despertando a curiosidade dos gringos para o que acontecia no Brasil. Musicalmente, a Bossa Nova abriu as portas do mundo para os brasileiros que viriam depois, como o Milton Nascimento, o Ivan Lins e o Jorge Benjor, que já chegaram a ser mais famosos no exterior do que no Brasil. Mas o significado da Bossa Nova na história do Brasil vai além da música: 1) ela reflete o estado de espírito de um país que passava por uma fase áurea; 2) talvez até por isso mesmo, ela poderia ter sido um sinal de alerta para o que estava por vir.

Explico.

1) Sobre a fase áurea: o final dos anos 50 foram o melhor momento vivido pelo povo Brasileiro (os primeiros anos de Plano Real rivalizam, mas acho que não chegam lá). O Presidente Juscelino passeava de fusca conversível festejando a chegada da indústria ao Brasil, e construía uma cidade futurista no meio do cerrado para ser a nova capital (alguma semelhança com Dubai?). Tudo o que era Brasileiro encantava o mundo – da Bossa Nova, que cativou Frank Sinatra e Stan Getz, ao futebol de Pelé, aquele menino de 17 anos que brilhou na Suécia e conquistou a primeira Copa do Mundo para o Brasil.

Patetada)

Rei Pelé comemorando a Copa de 58 (fonte: Patetada)

Imagine você sendo um brasileiro nesses tempos, acostumado a viver num país atrasado e isolado, e vendo esse mesmo país se lançar ao mundo e ao futuro com uma ousadia – e um sucesso – inéditos. Não tem como não expodir de orgulho e felicidade, e cantar as coisas boas da vida. Chega de saudade! O negócio é festejar o presente e esperar o bom futuro que se desenha. A Bossa Nova era uma música leve, alegre, suave, de bem com a vida. Era a expressão da felicidade e da esperança do Brasileiro do fim dos anos 50. Junto com a Bossa Nova devem ter surgido as expressões “Deus é Brasileiro” e “O Brasil é o país do futuro”.

Forum Outer Space)

Construção de Brasília (fonte: Forum Outer Space)

2) Sobre o sinal de alerta: Talvez a Bossa Nova pudesse ter avisado o Brasileiro que nada é tão simples assim, e que depois de uma fase tão boa SEMPRE vem uma fase ruim. Quem acreditou no amor, no sorriso e na flor sonhou, sonhou. O final dos anos 50 foi não mais que um “surto” de otimismo, liberdade e modernidade no Brasil, e passou logo depois. Os projetos megalomaníacos de JK custaram ao Brasil a estabilidade econômica e política, entregando o país à ditadura e à inflação das quais levamos, respectivamente, 21 e 35 anos para nos recuperar*, tendo a desigualdade social e a violência como sequelas que perduram até hoje. O Brasil voltou a se fechar ao mundo, a indústria nacional parou no tempo, e até a nossa seleção parou de ganhar as copas.

Falando em frases de efeito, uma que deveria ter surgido durante a Bossa Nova é “Está tudo tão bem que se melhorar estraga”. Porque é verdade. O momento em que mais temos que nos preocupar com o futuro é exatamente aquele em que as coisas parecem estar bem demais.

A boa notícia é que a Bossa Nova ficou. E também a nossa música se consolidou como uma das melhores e mais respeitadas do mundo. Nosso futebol também: não ganhamos todas mas somos sempre favoritos, e ainda produzimos os melhores jogadores do mundo.

A outra boa notícia é que, passada a má fase, o Brasil está indo bem hoje, graças à ação razoavelmente responsável de governos seguidos. Claro que temos um longo trajeto ainda a percorrer, mas o Brasil parece caminhar rumo ao futuro devagar e sempre, de um modo mais sustentável. Somos junto com a China, Índia e Rússia a grande aposta do mundo para o futuro. Até já viramos Investment Grade! Isso avisa ao Brasileiro que nada é tão impossível assim, e que depois de uma fase ruim SEMPRE vem uma fase boa. E chega de saudade.

Skyscraper City)

O Brasil é Investment Grade... (fonte: Skyscraper City)

... e o Rio de Janeiro continua lindo!

... e o Rio de Janeiro continua lindo!

* Claro que houveram outros motivos para a inflação e a ditadura, mas isso fica para outra discussão.

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Londres

Julho 24, 2008 · 9 Comentários

Salto em Picadilly Circus

Salto em Picadilly Circus

Uma pessoa se define por algumas decisões chave que tomou na vida. Uma profissão, um casamento, uma mudança para outra cidade, uma promoção no trabalho. Em cada uma delas vamos desviando nossa vida para aquilo que desejamos que ela seja - ou o que a realidade nos impõe - e passamos a ser as pessoas que somos hoje. Até que mudemos de rota de novo com outra decisão.

No meu caso, quiseram os caminhos da vida que eu viesse passar um tempo aqui em Londres. E lá se foram mais de 3 anos. Quando se tem que tomar uma nova decisão que pode mudar tudo, escrever ajuda a enxergar tudo aquilo que temos e podemos deixar para trás em nome de outra vida que podemos viver no futuro.

Pois então vem aqui um tributo à nossa vidinha em Londres.

Arrumando o apezinho

Arrumando o apezinho

Tem o apartamentinho na Floresta de São João, pequenino mas adorável. Fica pertinho do centro, a uma quadra dos estúdios de Abbey Road onde músicos que mudaram o mundo gravavam suas genialidades.

Dentro do ap tem o sofá, cuja capa nós trocamos na Ikea. Tem a geladeirinha de Stellas, que realiza o sonho de tomar cervejas sempre geladas sem levantar do sofá. Tem a TV onde assistimos a alta qualidade das produções britânicas, e aprendemos a adorar os programas de imóveis, culinária, e reality shows que o pessoal daqui também adora. Tem o XBox, com o Rainbow Six Vegas, o GTA 4, o Fifa, o Halo, para desestressar.

Minha geladeirinha querida

Minha geladeirinha querida

Daí, no final de semana, saímos eu e Denise para uma gostosa caminhada de 1.5km até o Sainsbury’s. Fazer supermercado é um prazer, escolhemos as coisas que gostamos, comparamos preços, experimentamos coisas novas, e damos risadas. Cada compra nos dá pontos no programa de fidelidade do Sainsbury’s. Colocamos tudo no “carrinho da vovó” e na sacolona da Ikea para não usar as sacolas plásticas que agridem o planeta. Pegamos o 187 de volta para casa e guardamos as compras.

Aprendemos a cozinhar, e nos divertimos fazendo almoços e jantares diferentes. Tem o “bacon & egg” da Denise, tem o meu risoto de frutos do mar, teve a moqueca que fizemos para o Eric Feddal (o gaulês), tem os omeletes, tem o Sunday roast. Plantamos manjericão e coentro em casa. Compramos apetrechos novos para a cozinha.

Hamburgão com guaraná

Hamburgão com guaraná

Sunday Roast em casa

Sunday Roast em casa

Tem a nossa pequena DVDteca que aumenta quase a cada semana. A Denise volta do trabalho e compra uns DVDzinhos novos para a gente assistir. Séries de TV americanas e britânicas, filmes daqui, filmes de outros lugares. Devoramos tudo no nosso sofazinho, saboreando nossos quitutes e tomando as cervejinhas da geladeirinha de Stellas.

Tem a nossa turminha, a Débora, o Fabian, a Juliana, o Stuart, o Mark Stanko, o Mark Huckstep, o Roger e a Cláudia lá em Yorkshire. Tem o pessoal que vem visitar – neste ano vieram Xaxá, Fatinha e Felipão, veio o Thiago Reimão, veio o Victor Adura e o Luigi, a Marise e o Gustavo, o George, A Julinha e a Renata, o Felipe Aquilino, o Pinhal, a Maria Helena. Temos o maior prazer em receber – a casa é pequena mas o coração é grande.

JC+D com Mark e Lisa Huckstep

Com Mark e Lisa Huckstep

De, JC, Juliana, Debora, Claudia, Roger

Com Juliana, Debora, Claudia, Roger

Baker Street Station

Baker Street Station

Tem o metrô de Londres, que a gente adora criticar mas que leva a gente pra todos os cantos. Tem o 139, que a gente pega aqui na esquina e passa em quase todos os lugares turísticos. Tem a bicicletinha que a Denise acabou de comprar, e que nós montamos sozinhos aqui em casa. Tem os vôos baratos para tudo quanto é canto da Europa. E bendito seja o Heathrow Express, que leva ao aeroporto em 15 minutos.

Tem a caminhada do Southbank, de Waterloo até a Tower Bridge, com o Founder’s Arms e o Honiman at Hay’s para paradas merecidas no caminho. Tem Covent Garden (Covent Góóden para os locais), com os artistas de rua, os Scottish Pasties e os pubzinhos onde eu me encontro com a turma da Denise depois do trabalho. Tem a Edgware Road, onde vamos comer um kebab sempre que dá vontade. Tem a Finchley Road e a Tottenham Court Road, onde compramos tudo o que precisamos (o que não vende nessas ruas não existe). Tem também o Guanabara, para a gente matar as saudades da terrinha, com música brasileira ao vivo e Brahmas no balcão.

Edgware Road

Edgware Road

Thames South Bank

Thames South Bank

Londres tem brasileiros de todas as origens. Tem indianos, japoneses, chineses, árabes, judeus, franceses, mexicanos, escandinavos, moçambicanos, australianos, italianos, russos, malaios, poloneses, Trinidad&Tobaguenses. Ah, de vez em quando tem uns ingleses também.

Em Londres as pessoas se preocupam com o meio ambiente (como se as atitudes de algumas pessaos nessa ilhazinha fossem salvar o planeta), com a saúde, com a justiça. Em Londres as regras são claras e quase todo mundo as respeita. Em Londres você não precisa reconhecer firma em cartório, e compra a passagem do trem mesmo quando ninguém vai checar.

London Eye + Big Ben

London Eye + Big Ben

E assim é a nossa vidinha. Eu encontro a Denise em qualquer ponto da cidade, e caminhamos durante horas. No caminho paramos para tirar fotos e comprar uma cerveja nas lojinhas de indiano. Chegamos em casa cansados de andar, botamos um camembert para assar e colocamos um DVD novo que compramos, para assistir e dormir, sem antes um de nós dois dizer:

“É boa a nossa vidinha aqui em Londres”.

Foi mal. Ficou meio longo o post. Mas eu queria deixar o registro.

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POCCNЯ e a conspiração das menininhas

Junho 28, 2008 · 11 Comentários

Vira e mexe nos acontecem esses causos que só poderiam acontecer em Londres, e que nos fazem questionar verdades que pareciam arraigadas em nosso passado.

Estávamos eu e Felipe Aquilino no Walkabout em Temple esperando começar a semifinal da Eurocopa entre Espanha e Rússia.De repente chegam 3 caras, se apossam do restante da mesa e começam a conversar numa língua bizarra. “Esses caras devem ser russos”, comentou o Felipe. Eram 2 russos e um ucraniano.

Começamos a conversar com eles, e me lembrei do medo que senti da União Soviética na copa de 1982 (jogada na Espanha, por sinal). Aqueles inimigos carrancudos, todos iguaizinhos, com a camisa vermelha escrito “CCCP” e o goleiro Dasaiev que anulou o ataque-arte do Brasil pela maior parte do jogo. Nunca entendi porque os soviéticos se chamavam “CCCP”, o que não tinha nada a ver com o URSS usado no Brasil ou o USSR do inglês.

Logo depois chega um outro cara com a camiseta do time russo e os dizeres “POCCNЯ” nas costas. Pergunto aos nossos amigos o que quer dizer aquilo, e eles respondem: “Rússia”. Simples assim: “P” = R, “O” = “u”, “C” = “s”, “N” = “i”, e o erre ao contrário “Я” = “a”.

Essa simples passagem me permitiu desvendar o mistério que assolava minha mente por 26 anos!! “CCCP” era, na verdade, “SSSR” no nosso alfabeto (Algo como “Socialistas Soviéticas Somadas* Repúblicas”). Igualzinho!! Simples quando se sabe o código!!

Aí parei para pensar: essa técnica de trocar as letras para escrever em código era muito utilizada pelas garotas que faziam “agenda” durante a minha pré-adolescência…… Será que elas aprenderam a técnica em algum manual russo, ou estudando a lógica bolchevique? Ou seriam elas um exército de agentes russos, disfarçados por trás daquela aura angelical e alienada de menininhas para não levantar suspeitas? Eu bem pensava que os trechos em código das agendas eram sobre os meninos que elas gostavam e etc. Mas bem poderiam ser palavras de ordem e planos da uma conspiração comunista destinada a substituir a ditadura militar por um “politburo” sul-americano.

Bom, escapamos por pouco. De alguma forma a organização subversiva se desmantelou e aqueles agentes cresceram para se tornar mulheres brasileiras adultas, felizes e bem-sucedidas. Talvez, com a derrocada do império Soviético, acabou o dinheiro para financiar a revolução comunista das menininhas. Ou de repente elas eram menininhas mesmo e de fato os códigos eram todos sobre outros menininhos.

Mas se um dia eu botar a mão numa daquelas agendas de 20 anos atrás, ah eu vou pegar o alfabeto russo para desvendar os códigos e tirar a prova!!

Obs:

* “Somadas” é forçação de barra da minha parte. Na verdade a palavra russa que quer dizer “Unidas” começa com S, mas não lembro qual era.

** - A foto eu peguei da internet, no site AP Photo, e foi tirada por Sergey Ponomarev. Clique na foto para ver o site original e mais fotos do cara.

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Dado meu recente envolvimento com o mundo ferroviário, vai aí mais um post sobre trens.

Agosto 25, 2006 · Nenhum Comentário

JC e Denise refletidos no trem italiano

Domingão de sol na Itália, eu e Denise esperamos mais de 1 hora o trem para Roma. Estavam checando a geometria da linha (o que agora sei que é uma importsntíssima medida!). Para aliviar o enfado da espera, ficamos tirando fotos.

Tiramos fotos andando sobre os trilhos, tiramos fotos com cores trocadas, e tiramos fotos do nosso reflexo na janela do trem que vinha na outra direção (a qual é exibida aqui neste humilde fotolog).

Nas várias tentativas de fazer uma foto boa do nosso reflexo, em certo ponto começamos a acenar para a foto ficar mais divertida. Um pasaageiro do trem acenou de volta para a Denise. Abusadinho, o italiano…

Bom, para fechar, 2 fatos curiosos sobre a ferrovia italiana:
1) Os trens lá tem 2 andares (assim como os onibus no Reino Unido);
2) O equivalente italiano do bordão “mind the gap” é o irritante “Vietato attraversari i binari” (proibido atravessar os trilhos), o qual é solenemente ignorado por 99% dos italianos.

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A Solidão é uma lava que cobre tudo

Agosto 18, 2006 · Nenhum Comentário

War

Por isso, resolvi fazer um pequeno investimento em jogos de tabuleiro. Comprei “Risk” – o jogo da estratégia, que se chama War no Brasil.

Cheguei em casa, ansioso como um moleque, e abri a caixinha para ver quais as diferenças e semelhanças do Risk com o War que marcou minha adolesceência. A diferença está mais na parte visual. Ao invés das pecinhas discóides, temos soldados, cavalaria (vale por 5 soldados) e infantaria (vale por 10 soldados). No mais o jogo é bom semelhante, a não ser pelos nomes de alguns territórios (não existem os estranhos nomes “Dudinka” e “Vladivostok”) e pelo fato que só há dois dados para a defesa.

Na falta de companhia, fui o adversário de mim mesmo. Encarnei 6 generais, odiei quem eu tinha sido segundos atrás, destruí o que construíra na jogada anterior.

A foto mostra os Soldadinhos na África do Sul temendo por seu destino antes do jogo começar. Eles tinham razão em tremer: foram as primeiras baixas da grande guerra.

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