É do homem buscar contato em outros mundos. A Terra é circundada por uma nuvem de ondas de rádio 80 anos-luz de diâmetro (desde que se começou a transmitir ondas de rádio). Governos gastam bilhões enviando sondas ao espaço com desenhos, mansagens, amostras da humanidade para que alguém possa ter conhecimento da nossa existência. Esperanças (talvez) vãs de encontrar um “elo perdido”, alguma forma de vida inteligente em algum lugar do universo que nos faça sentir menos solitários, menos “drifting into outer space”, e quem sabe ainda nos ensine mais sore nossas origens como forma de vida.
Pois bem, da mesma forma este fotolog serviu como os meus “sinais” para encontrarem o meu elo perdido. E encontraram!! Eu não conheço pessoalmente as pessoas dessa foto, mas existe uma ligação de sangue que não pode ser ignorada. A foto mostra a Maria Helena Cotta Cardozo, a Leninha, prima de meu pai por obras tortuosas do destino. Posa junto com sua filha Mayra num dos glaciares da Patagônia.
Pois bem, Maria Helena encontrou neste humilde fotolog um parente distante. Assim, já conhecia muito da minha vida e minha história antes de me contactar. Se divertiu com alguns posts aqui e aprendeu sobre minha família, meu curso, minha noiva, minha vida. Confortante isso.
E com ela aprendi coisas interessantes a respeito das minhas origens. Meu avô João Cardoso (de quem carrego o nome e o legado) tinha mais 3 irmãos, mas foi criado por uma amiga da família por questões financeiras.”adotou” o menino, em 1928. O sobrenome original era “Cardozo”, com z, mas a mãe adotiva do meu avô registrou-o com s.
Passaram-se 80 anos. Meu avô viveu sua vida, longe dos irmãos. Alguns dos irmãos se mudaram para Brasília, outros ficaram no Rio. João estoudou, casou e veio a ter 5 filhos, e jamais deixou o Rio. Trabalhou para companhias britânicas e viajou algumas vezes para o Reino Unido, de onde retornava fascinado.
João descobriu sua situação de adotivo e a identidade de seu pai biológico no dia do enterro deste pai. Ganhou 3 irmãos mais velhos instantaneamente. Algum contato existiu entre João e os irmãos na época, os filhos brincaram juntos na infância. Depois, quis a vida que voltassem a se afastar.
O filho mais velho de João era Antônio, que venerava o pai e trabalhou duro desde pequeno. Enquanto os sobrinhos de João continuavam ganhando o Brasil (um foi para a Bahia, outros voltaram ao Rio), Antônio foi encontrar seu destino em São Paulo, para onde se mudou em 1973 com a esposa e a filha recém nascida, Simone. Em São Paulo, Antônio e a esposa Fátima tiveram mais 2 filhos, João Claudio (homenagem ao avô, que viria a se tornar o humilde redator deste fotolog) e Felipe.
Décadas depois, em 2005, o filho do meio de Antônio (João Claudio) resolve se aventurar pelas terras britânicas que despertaram a paixão do avô 40 anos antes. Do lado de lá, Mayra, a filha de Maria Helena, resolve ir para a Itália concluir seus cursos de italiano. Peocupada, Maria Helena finalmente descobre que um de seus primos (precisamente o Antônio) também vive a situação de ter um filho morando longe. Fica mais tranquila, e resolve quebrar o gelo e procurar esse tal de João Claudio. Quem sabe ele seja mesmo o elo perdido da minha família. Quem sabe através de nós se consiga enterrar décadas de afastamento e restaurar o laço que explica o sobrenome Cotta Cardoso (ou Cardozo).
Maria Helena acertou em cheio. João Claudio era precisamente filho de Antônio, neto de João, o tio adotivo distante que ela conhecera na infância. Ironicamente, o contato se deu no exato dia em que falecia a esposa de João, Norméa, quase 10 anos após a pasgem do patriarca. Vai entender. Temos trocado segredos de família, fotos e fatos. Emoções escondidas afloram no processo. Em breve estaremos todos em contato. Se vai algum dia existir de novo uma grande família Cotta Cardoso (ou Cardozo) agora está nas nossas mãos. E seja lá o que aconteça, saber que tem gente longe longe longe que carrega o meu sangue e o meu legado é um fato confortante. Como se eu houvesse mandado uma sonda ao espaço e tivesse recebido uma resposta.
Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração. Assim falava a canção que na América ouvi. Quem cantava chorou, ao ver seu amigo partir. E quem voou, no pensamento ficou com a lembrança que o outro deixou. E quem ficou, no pensamento voou, com a lembrana que o outro lembrou. Amigo é coisa pra se guardar do lardo esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não; mesmo esquecendo a canção. O que importa é ouvir a voz que vem do coração. Pois seja o que vier, venha o que vier, qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar. Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.




